Sobrevivendo com lixo

Setorial

Em um mercado de trabalho que exclui muitos, a arte da sobrevivência se recria a cada dia. Papel, papelão, plástico, jornais, revistas, caixas, embalagens, garrafas, frascos, copos, metais, vidros, latas, pedras, trapos, material orgânico dentre tantos outros são comuns e fáceis de serem encontrados nas lixeiras dos goianos, que não veem mais utilidades para os mesmos.

Mas para os denominados catadores de lixo, todos esses descartes representam trabalho e sobrevivência. Serviço esse prestado por cidadãos que, consciente e inconscientemente, desempenham um papel de equilíbrio de relevante contribuição à sociedade e ao meio ambiente.

Os catadores de lixo reciclável são exemplo de trabalhadores que criaram alternativas para sobreviver com uma atividade que fornece benefícios importantes à sociedade com a reciclagem dos resíduos sólidos urbanos, vulgarmente denominados por lixo urbano, resultantes da atividade doméstica e comercial. Estima-se que estes profissionais contribuam com cerca de 90% de todo o material que alimenta a indústria brasileira de reciclagem.

Hoje, um em cada 1.000 brasileiros é catador de lixo reciclável. Em Goiânia, de acordo com a responsável pelas cooperativas de reciclagem cadastradas no Programa Goiânia Coleta Seletiva (PGCS), Dulce Helena, existem 350 catadores cadastrados, além das 600 pessoas envolvidas no trabalho. “Este número absoluto é apenas dos trabalhadores cadastrados. É certo que temos muitos mais catadores de lixo reciclável na Capital”, assegura Dulce a respeito dos trabalhadores autônomos que se espalham pelas ruas da cidade em busca de papel branco, considerado o “carro chefe” da reciclagem, seguido pela garrafa pet e a latinha de alumínio.

Mas a atividade nem sempre é bem vista pela sociedade, uma vez que, no imaginário de muitos, a rua representa local de abandono, dos excluídos, lugar em que ninguém quer estar. Caso da catadora de lixo reciclável Paula Síntia Almeida de Lima, 24 anos, mãe de uma criança de dois anos e à espera do segundo filho.

Grávida de oito meses, Síntia não sabe o que é viver fora do lixão. Desde criança trabalha com os tios que a criaram nessa atividade da qual não deseja sair, mas legalizá-la. “Nós estamos apelando para a Prefeitura de Goiânia nos dar um lugar para ficar e criarmos nossa associação” declara.

Síntia faz parte do grupo das mais de 158 famílias que moravam em volta do lixão de Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. Eles viviam em extrema pobreza e sobreviviam com o pouco dinheiro arrecadado com a venda de materiais recicláveis que recolhiam no aterro.

A jovem, de olhar vago, conta à reportagem do Diário da Manhã que, durante oito anos, ela e os tios moraram e trabalharam no lixão de Aparecida de Goiânia. “Nós morávamos lá, era ótimo, tudo que queríamos era só ir ao lixão e pegar. Nós retirávamos de lá nosso próprio sustento”, diz.

Mas, com o fechamento do aterro, em janeiro deste ano, ela e a família tiveram que deixar o local. “Tivemos que sair de lá porque os guardas (guardas civis municipais) batiam demais na gente”, conta. Enquanto Síntia conversava com a reportagem do Diário da Manhã, sua filha de dois anos de idade estava com os tios pelas ruas de Goiânia catando lixo.

Desassistidos

Hoje, Síntia, os tios e mais dez moradores de rua, com idade entre 20 a 60 anos, trabalham por conta própria nas ruas de Goiânia, recolhendo, selecionando e transportando material reciclável na via pública e nos estabelecimentos para venda ou uso próprio. Todos vivem às margens da Marginal Botafogo, na capital, em situação de pobreza extrema, contando apenas com o que podemos chamar de “lar”, um chão batido coberto por uma lona.

Com o fechamento do aterro sanitário de Aparecida atendendo decisão da resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que permitiu ao município que se adequasse à política nacional de resíduos sólidos, foram construídas casas para 64 famílias que iniciaram uma cooperativa. O objetivo da ação era realizar a inclusão social das famílias que antes viviam de coletar lixo nas dependências do espaço em situação desumana.

No entanto, Síntia se sente injustiçada porque, apesar de, na época, fazer parte do grupo das famílias que viviam do lixão, não conseguiu o benefício. “Nós tínhamos casa no lixão, nossos barracos, quando fomos obrigados a sair de lá, algumas famílias ganharam moradia. Mas a minha família não conseguiu, até porque pessoas que não moravam lá se passaram por moradores e conseguiram casa e nós não conseguimos, foram injustos com a gente”, lamenta.

Contudo a jovem mãe não perde as esperanças e espera até o nascimento do bebê, previsto para setembro, não ter mais que enfrentar as noites frias, no acampamento onde está. “Aqui faz muito frio”, constata.

Claubir Teixeira de Lemos, 34 anos, diferente de Síntia, faz parte de uma associação de catadores de lixo reciclável. Porém, ele revela que muitos são os obstáculos enfrentados para tentar manter a Associação Beija Flor, da qual ele é presidente desde 2012.

Atualmente a associação funciona em um local alugado e, segundo Claubir, sai caro para o bolso dos associados, que poderiam já ter um galpão cedido pelo município. “A lei de utilidade pública determina que cada cooperativa ou associação de reciclagem deveria ganhar do município um galpão adequado, mas nada disso foi feito até agora”, observa.

Ele conta que, ao colocar todas as despesas da associação na ponta do lápis, fica preocupado caso não conte com o apoio do governo, que tem o recurso, mas não seria liberado devido a entraves do município. “O governo federal tem verbas liberadas para investir nas cooperativas, mas só fazem investimentos se tivermos área, um galpão que seja cedido pela prefeitura para as cooperativas. Mas não conseguimos porque o município trava as portas”, protesta.

Ele ainda estaca que a área onde estão atualmente é alugada mensalmente pelo valor de R$ 1.330, sem contabilizar as despesas com energia, água, alimentação para os associados dentre outros insumos.

Tudo é tirado da renda com a venda dos materiais recicláveis. Cada associado chega a tirar em média, livre de todas as despesas, R$ 1.000 por mês. “Poderia ser melhor, mas enquanto não se ver nenhum respaldo do município e dos demais, infelizmente, a gente fica desse mesmo jeitinho. A gente corre muito, mas ver os frutos é difícil”, descreve Claubir.

Vivendo do lixo

Ananias Pires Menezes, 24 anos, não tem casa própria, mora de aluguel, trabalha das 8h às 22h e está feliz. “Trabalho catando lixo porque é um meio de eu ganhar meu dinheiro”. Há um ano e oito meses, ele faz parte do grupo dos 21 associados da Associação Beija Flor. Antes de começar a catar lixo, Ananias trabalhava na construção civil – trabalho árduo se comparado com o realizado hoje, segundo ele. “É bom trabalhar aqui, ganho meu dinheiro de boa (risos)”, avalia.

Logo ali, ao lado do colega de trabalho Ananias, estava Maria Aparecida Rodrigues da Cruz Pereira, 28 anos, que há um ano e seis meses trabalha com reciclagem. Antes de aderir à reciclagem, Maria trabalhava em uma pousada em Caldas Novas e diz que o que a levou a mudar de área foi uma experiência que a agradou. “Comecei a trabalhar com reciclagem, gostei e resolvi ficar”.

Maria é divorciada e tem uma filha de 11 anos que mora com a avó em Caldas Novas. Ela admite que nem sempre o salário na associação é o mesmo e que depende muito da produção em quantidade de resíduos sólidos colhidos. Ela, que paga, atualmente, R$ 700 de aluguel, diz que o que a salva é a ajuda do pai da filha, que paga a pensão mensalmente. No entanto reconhece que o valor do aluguel está muito acima do que ela pode pagar e diz estar à procura de um lugar mais em conta.

Mesmo com todas as dificuldade, Maria está realizada com o trabalho de reciclagem, mas planeja para o futuro voltar a trabalhar de carteira assinada. “Ficar muito tempo trabalhando sem a carteira assinada é ruim para a gente”, conclui.

O trabalho diário dos catadores de resíduos recicláveis, talvez sem aparente valor social para muitos, é responsável pela manutenção da qualidade de vida no planeta ao impedir que considerável volume de recursos naturais se converta em lixo. “Nós transformamos o lixo em renda para a sobrevivência dos membros associados que trabalham diretamente conosco. E diminuímos o impacto ambiental causado pelo mesmo”, aponta Claubir.

Conscientização necessária

As maiores vantagens da reciclagem são a minimização da utilização de fontes naturais, muitas vezes não renováveis, e a da quantidade de resíduos que necessitam de tratamento final, como aterramento ou incineração. Para o presidente da Associação Beija Flor, Claubir, o maior problema é a falta de conscientização das pessoas. “As pessoas não enxergarem a utilidade de uma cooperativa perto de sua casa ou qual a função da mesma. E o trabalho que deveria ser feito, por parte da sociedade na separação dos resíduos, com mais cautela, com cuidado, não tem sido feito, eles jogam de qualquer jeito”, lamenta.

Dicas para separar o lixo reciclável

Veja como é fácil separar corretamente o lixo

  • Para afastar insetos, deixe o lixo armazenado em um recipiente fechado. É importante tampar a garrafa PET.
  • Vidros quebrados, lâminas de barbear e outros materiais cortantes ou perfurantes devem ser colocados dentro de caixas ou enrolados em folha de jornal, para não ferir os coletores.
  • Muitas pessoas amarram o cachorro à lixeira e não entendem por que os coletores não recolheram o lixo. Também é comum – mas errado – pendurar a sacola em portões e muros vigiados por cães.
  • A caneta estourou? Não coloque no lixo a ser reciclado. Mas quando a tinta acaba, basta separar as partes, jogar o tubo de tinta no lixo convencional e o plástico no reciclável.
  • Não deixe para colocar a sacola em frente ao portão somente quando ouve o sino do caminhão do lixo que não é lixo. Os coletores não podem esperar. Quando não dá tempo de recolher, a sacola fica para trás e é levada, pelo caminhão convencional, para o aterro.
  • Há coleta específica para recolher restos de jardinagem, materiais de construção e animais mortos, desde que dentro de limites considerados não comerciais. Solicite o serviço pelo telefone 156.
  • Papel sujo não pode ser reciclado. Mas papel apenas molhado pode. Então, se o lixo que você colocar em frente de casa tomar chuva, não há problema.
  • Não adianta mandar roupas no lixo que não é lixo achando que elas serão doadas ou reaproveitadas. Além de não serem recicladas, as roupas acabam sendo levadas para o aterro.
  • Nem todo vidro é reciclável. O caminhão do lixo não leva vidro de janela nem lâmpadas (que são consideradas tóxicas). Também latas de tinta não devem ser colocadas entre os materiais a serem reciclados. Caixa de pizza sem gordura pode ser reaproveitada, mas se o queijo grudou ou a gordura escorreu, coloque no lixo convencional. 
     

Fonte: DM.com.br

 

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